O fígado, as meninas e os gaviões

José Carlos Ferraz da Fonseca

Médico especialista em Doenças do Fígado (Hepatologia)



Nesta foto nota-se olhos amarelos (icterícia discreta) em jovem portadora de hepatite crônica auto-imune (imagem pertencente ao editor deste blog)









Esta foto revela paciente do sexo masculino com alto grau de icterícia (pele e olhos amarelos). O mesmo foi diagnosticado como provável portador de hepatite aguda auto-imune. (foto pertencente ao arquivo do editor deste blog)




O filme brasileiro que concorreu ao “Oscar” de melhor filme estrangeiro em 2006 tinha um título sui generis e interessante: “cinema, aspirinas e urubus”. Quem assistiu, diz que é excelente, apesar do título exótico . Escrevi este artigo médico com o título de “O fígado, as meninas e os gaviões” e explico as razões: tenho diagnosticado freqüentemente em pacientes do sexo feminino, crianças, adolescentes ou jovens adultas, uma doença inflamatória contínua do fígado que na maioria das vezes evolui para cirrose hepática, sem causa conhecida. Sabe-se que a inflamação crônica e destruição do fígado nas meninas dar-se-ia por uma reação anormal do sistema (imunológico) de defesa da própria paciente. A referida doença é conhecida no meio médico como “hepatite auto-imune” e é rara. Recentemente, um paciente do sexo masculino (54 anos) com tal enfermidade crônica do fígado foi diagnosticado em meu consultório, ou seja, dos 29 casos de hepatite auto-imune diagnosticados entre 2006 e março de 2010, apenas quatro pertenciam ao sexo masculino.

Com relação ao título deste artigo, acredito que eu tenha explicado sucintamente a relação entre a doença inflamatória contínua do fígado e as meninas. Todavia, o leitor deve estar questionando o seguinte: e os gaviões, o que isso tem haver com o fígado e as meninas? Nada, por enquanto, como os “urubus” do filme brasileiro. Como precisava de um título, também único no seu gênero, simplesmente lembrei que os pais de antigamente chamavam de gaviões, os meninos que ficavam brechando ou abicorando (falava-se assim) suas filhas para namorar, daí, o complemento do título deste artigo.

Afinal de contas, como se caracteriza esta doença? Conforme relatado anteriormente, a hepatite auto-imune acomete preferencialmente as mulheres adolescentes e jovens (3 anos-25 anos). Todavia, pode aparecer numa idade mais avançada (40-70 anos). A destruição do fígado é progressiva e pode evoluir para cirrose hepática na ausência de tratamento específico. Bactérias e vírus (da hepatite A, B e C, herpes tipo 1, sarampo, da mononucleose infecciosa ou doença do beijo) poderiam estar implicados como agentes desencadeantes da hepatite auto-imune, ou seja, as bactérias e os vírus funcionariam como gatilho no aparecimento da doença. Seria a hepatite auto-imune uma doença de caráter hereditário? Vários estudos sugerem que sim, mas ainda não podemos afirmar com segurança se isto é verdadeiro.

Um número significativo de pacientes cursa com a inflamação crônica do fígado sem apresentar qualquer sinal ou sintoma de comprometimento hepático. Entretanto, a doença pode se exteriorizar como se fosse hepatite aguda, caracterizada por: febre, dor muscular (mialgia), enjôos (náuseas), vômitos, pele e olhos amarelos (icterícia), urina escura (colúria), falta de apetite (anorexia) e emagrecimento. Apesar de não ser freqüente, formas graves e fulminantes de hepatite podem ocorrer, inclusive com óbito.

Além dos sinais e sintomas acima descritos, é freqüentemente observado entre algumas pacientes adolescentes sinais de doença das glândulas (endócrina), como se segue: falta de menstruação (amenorréia); presença exagerada de pelos no rosto (hirsutismo); espinhas (acne); estrias, principalmente nas costas e coxas. Quando sua filha adolescente cheia de espinha e estrias, atrasar a menstruação por mais de 3 a 6 meses, não pense logo que tal atraso menstrual seja culpa de algum gavião. Por favor, procure um especialista, sua andorinha pode estar doente.

Infelizmente, se a doença inflamatória contínua do fígado ocorre numa fase mais precoce de vida (3 anos e 10 anos), esta pode passar despercebida (sem qualquer sintoma ou sinal) e se não devidamente diagnosticada e tratada, é comum que quando chegue na fase adulta, a paciente apresente sinais clínicos de cirrotização do fígado, tais como: falta de menstruação (amenorréia), barriga d’água (ascite), sangramento da gengiva (gengivorragia) e do nariz (epistaxe), hemorragia digestiva por rupturas de varizes esofágicas. Esta é a fase mais avançada e grave da doença e só um transplante hepático pode resolver o problema.

O diagnóstico da hepatite auto-imune é muito difícil para o especialista, já que não existe um exame específico que defina o diagnóstico da hepatite auto-imune. Utilizamos um sistema de pontuação de resultados de vários exames de laboratório para sistematizar o diagnóstico da enfermidade. A biópsia do fígado é o exame mais importante na elucidação da doença.

Se não tratada, a paciente vai evoluir inexoravelmente para cirrose hepática. O diagnóstico tem que ser precoce para que possamos iniciar o tratamento com drogas que diminuam o componente inflamatório do fígado e impeçam assim, o aparecimento da cirrose hepática. Tenho pacientes que foram diagnosticadas na fase inicial da doença (sem cirrose) há mais de 15 anos, continuam tomando as medicações e estão muito bem e, até agora não desenvolveram cirrose.

3 comentários:

Katia disse...

Dr. José Carlos, não há duvidas de que esse texto foi essencial para esclarecer minhas duvidas quanto a minha saúde. Tive hepatite quando criança, porém, na época diagnosticado e tratado. Atualmente, tive uns sintomas horriveis, como enjoo, atraso da menstruação. o que me fez pensar em mil possibilidades, menos na volta da doença.Tendo inclusive tomado alguns remedios para que a menstruação descesse. Por estar em duvidas, até mesmo em certo desespero, resolvi pesquisar e deparei com esse maravilhoso texto, que foi uma benção em minha vida. Pude procurar um especialista e diagnosticar o problema. Parabéns pelo texto, pelos estudos realizados. São desses profissionais, que o mundo virtual precisa, com textos inteligentes, de leitura agradavel e que nos ajudam no dia a dia. Estou iniciando tratamento.
Katia
Mato Grosso

Rosane disse...

Dr. José Carlos, obrigada pelo texto que nos ajuda a entender melhor nossas patologias.
Desencadeou em mim uma hepatite auto imune "coincidentemente" após uma vacina de hepatite B.Sei que se cogita o fato da mesma ser hereditária, dos médicos não saberem a causa, mas dentro de mim sinto que o gatilho foi a vacina.Li sobre a morte do sobrinho da dançarina Carla Peres dia 11,da auto imune púrpura e se cogita que a mesma se apresentou após uma vacina de meningite.Agora fiquei mais intrigada ainda.o Sr não sabe nada a esse respeito?

Geovanna disse...

Olá Dr. José Carlos, adorei o seu texto.
Fui diagnosticada com Hepatite Auto Imune ha 10 anos. Faço tratamento com o Predinisona e Azatioprina, o médico diz que não há mais inflamação no meu fígado, porém nunca houve possibilidade de retirar o medicamento. Nesses últimos meses notei que minha menstruação está vindo pouca, e nesse mês ainda nem veio. Já fico preocupada achando que pode haver risco de gravidez. Mas lendo seu texto percebi que pode ser um sinal do meu fígado. Esse atraso e essa falta de menstruação é normal para uma paciente com HAI ?
Beijos, Geovanna.
Espirito Santo.