O fígado e a deficiência de vitamina D

José Carlos Ferraz da Fonseca
Médico especialista em doenças do fígado (Hepatologia)


Quando funciona a contento, o fígado tem a capacidade de sintetizar todas as vitaminas que o organismo recebe, seja através dos alimentos que consumimos, dos complexos vitamínicos que, algumas vezes, teimamos em ingerir em grandes quantidades ou pela exposição da pele ao sol (conversão fotoquímica para previtamina D3).

Sabemos que todas as vitaminas são necessárias ao nosso organismo para que possamos viver com saúde e sem problemas, citando, como exemplo, as vitaminas A, B, C, D, E e K. Destas, a vitamina D é muito importante, pois, em conjunto com o hormônio da paratireoide, mantém a concentração de cálcio e fosfato no organismo, favorecendo a estrutura dos ossos. Existem dois tipos de vitamina D: a vitamina D2 e D3. As principais fontes da vitamina D são: óleo de peixe, contido no salmão, sardinhas do mar e ovas de peixe; margarina; manteiga; leite; creme de leite; cogumelos; cereais, ingeridos no café da manhã. Além disso, a exposição ao sol faz com que o organismo produza vitamina D.

Nos últimos anos, diversos trabalhos científicos revelam que a deficiência da vitamina D, em pacientes com doença hepática crônica, pode contribuir para as formas mais graves e progressivas da doença, inclusive com evolução desfavorável para cirrose hepática.

 O déficit de vitamina D, associado à deficiência do cálcio no organismo, pode estar relacionado a várias doenças, e a mais importante delas é a osteodistrofia hepática, cujo conceito científico consiste em complicação tardia frequente nas doenças hepáticas crônicas, em que os pacientes, comumente, apresentam diminuição da densidade óssea,  caracterizada principalmente por osteoporose (massa óssea baixa) e fraturas ósseas espontâneas.

Estudos publicados nos Estados Unidos (ano 2010) revelam dados preocupantes relacionados à prevalência da deficiência de vitamina D em pacientes com doença hepática crônica. Nesse estudo americano, dos 109 pacientes investigados, 92,5% apresentavam vários graus de deficiência de vitamina D no sangue. Foi observado, ainda, que o grupo de pacientes portadores de cirrose hepática apresentava índices maiores de deficiência do que o observado entre pacientes não cirróticos (29,5% versus 14,15%). Outro dado relevante a ser destacado dessa pesquisa foi que, entre as mulheres afro-americanas, o índice de deficiência da vitamina D teve maior prevalência.

Entre pacientes com hepatite crônica ou cirrose hepática pelo vírus da hepatite C (VHC), os níveis do déficit de vitamina D no sangue são gritantes. Na minha experiência, de 154 casos analisados (dados não publicados), 62,7% apresentavam-se com déficit acentuado dessa vitamina, 28,4% com déficit moderado, 6,4% leve e, apenas, 2,5% com níveis normais de vitamina D. Os resultados encontrados na minha casuística não se diferenciam de outros estudos publicados. Entre pacientes de origem americana com cirrose pelo VHC, foi observado que: 30,2% tinham déficit acentuado, 48,8% déficit moderado e 16,3% apresentavam leve déficit de vitamina D.

Em pacientes com doença hepática crônica pelo VHC e que apresentam déficit de vitamina D, é observado um maior comprometimento hepático, caracterizado por alto grau de necrose (destruição do tecido hepático) e exacerbação da progressão para fibrose hepática. A vitamina D, no organismo, desempenha várias ações, mas a mais importante é a ação anti-inflamatória que exerce. A simples reposição terapêutica da vitamina D entre estes pacientes, por um período nunca inferior a seis meses, ajuda a melhorar a função hepática. Portanto recomenda-se aos pacientes portadores de qualquer doença hepática crônica (hepatite crônica autoimune, esteato-hepatite não alcoólica, cirrose hepática, cirrose biliar, colangite esclerosante e colestase crônica) a dosagem no sangue da vitamina D. Se o paciente apresentar queda dos níveis sanguíneos de vitamina D, o médico assistente deve repor esta vitamina imediatamente. A simples reposição da vitamina D, por via oral, melhora a qualidade de vida entre estes pacientes.

Estudos atuais sugerem que as células cancerígenas produzidas por determinados tumores, principalmente o carcinoma hepático, são capazes de inibir os efeitos da vitamina D em nosso organismo. Assim, a vitamina D tem sido indicada no tratamento coadjuvante dos tumores cancerígenos de origem hepática. A partir de estudos experimentais, sabe-se que a vitamina D3 é capaz de inibir a invasão de células cancerígenas em ratos. Com base nesses estudos e outros, a indicação da vitamina D como profilático de determinados tumores começa a ser investigada. Contudo os resultados ainda são bastante preliminares, então, por favor, não se automedique com qualquer tipo de remédio sem antes ouvir o seu médico, ele é a pessoa certa para medicá-lo.

Várias teorias tentam explicar o déficit de vitamina D encontrado frequentemente entre pacientes com doença hepática crônica, principalmente entre portadores de hepatopatia crônica pelo VHC. Todavia o que temos de mais concreto é que, entre pacientes cirróticos, ocorre uma redução da exposição às fontes de vitamina D (raios de sol, dieta). Outros fatores, como a má absorção da vitamina D no intestino e a redução da produção de albumina pelo fígado cirrótico, podem gerar o déficit da vitamina D.

2 comentários:

bete disse...

Dr. Jose Carlos, agradeço imensamente a oportunidade de ler suas explicação altamente elucidativas.
Acabei de receber o resultado de TC, e estava muito apreenciva pelo laudo de cistos no fígado.
O Sr. apresenta uma elogiável capacidade de explicação, capaz de passar tranquilidade e seriedade atraves de suas palavras, sem cobrar nada em troca.
O Sr. é um grande ser humano e verdadeiro profissional de saúde, coisa muito rara nos dias atuais.
Hoje durmo em Paz, a manhã procurarei um médico aqui no RJ para acompanhar com cautela esses cistos encontrados. Que Deus o abençoe!

JOAO ARAUJO disse...

Informações relevantes.