O fígado nos pacientes diabéticos: um “doce segredo” a ser revelado

José Carlos Ferraz da Fonseca

Médico especialista em Doenças do Fígado (Hepatologia)



Estima-se que aproximadamente 175 milhões de pessoas no mundo tenham uma das duas formas clínicas de diabetes: diabetes tipo 1 (diabetes insulino- dependente ou juvenil) e diabetes tipo 2. Dos 175 milhões de diabéticos no mundo, 90% são portadores de diabetes tipo 2. No Brasil, calcula-se que existam 4,5 milhões de portadores da doença “diabetes”. Através de um programa continuado de educação médica, grande parte dos diabéticos conhece os efeitos nocivos que porventura essa doença possa ocasionar quando não controlada, tais como: emagrecimento, perda da visão, dificuldades no processo de cicatrização, furunculose, doenças renais graves (insuficiência renal crônica), infecções genitais e urinárias freqüentes na mulher e, finalmente, doenças vasculares ocasionando derrame cerebral, infarto do miocárdio, formigamento nos pés, amputação de membros por gangrena, disfunção erétil, etc.

Existe algum comprometimento do fígado em pacientes diabéticos? Segundo o que a maioria dos pacientes crê, não! É factível acreditar neles, já que para os “doces pacientes” tudo se encontra às mil sobremesas, o fígado só deve estar um pouquinho doce, branquinho como açúcar refinado e ponto final!

O que escrevo acima me fez lembrar de minha mãe. Era uma diabética aos extremos (glicose no sangue menor que 250mg era uma festa lá em casa). Sempre teve uma personalidade fortíssima, todavia com uma “doçura química” inquestionável. No dia-a-dia, comia de tudo. Doceira de mão cheia, não dispensava uma sobremesa, tanto no almoço como no jantar. Mas na hora do cafezinho dizia sempre: “sou diabética e, por favor, só tomo café com adoçante”.

Faço a partir deste artigo um pacto com os pacientes diabéticos ou familiares. Revelo aqui parte do subtítulo deste artigo, o “doce segredo”, e os diabéticos devem prometer procurar o seu endocrinologista para se tratarem.

Durante minhas aulas e palestras, expresso-me sempre dizendo que o fígado é o poço ou receptáculo de nosso organismo, uma verdadeira cisterna. Tudo o que é de ruim passa por ele (álcool, cocaína, antiinflamatórios, remédios para emagrecer, chás caseiros, plantas medicinais de origem brasileiras e chinesas, vermes, fungos, bactérias, vírus, produtos finais de alimentos gordurosos, etc.). Mesmo assim, nosso “camarada fígado” raramente manifesta-se e não dói. Porém, um dia, a casa cai, mas aí é tarde e a recuperação se torna difícil.

Sabemos que a origem da doença diabetes tipo 2 está relacionada com um quadro de resistência a insulina em 90% dos casos. Obesidade é o mais importante fator de risco para diabetes e as duas condições clínicas estão sempre lado a lado. O que acontece no fígado em conseqüência do aumento da glicose ? Muita coisa que a maioria dos pacientes não sabem. Cientificamente, observa-se que parte dos pacientes adultos com diabetes tipo 2 tem um aumento significativo de doenças hepáticas, incluindo cirrose hepática, quando comparados com a população geral não-diabética. Um percentual significativo dos pacientes com cirrose hepática tem resistência à insulina e 20-40% tem diabetes tipo 2.

Falando tanto de cirrose hepática, o que viria a ser esta doença que tanto assusta? Sem rodeios, a cirrose é o processo final de reparação do fígado (substituição de tecido normal por tecido fibroso e sem função) de uma lesão mantida e contínua aos longos dos anos por um agente, que pode ser infeccioso, medicamentoso, químico (álcool), metabólico ou imunológico (o próprio organismo tentando destruir o fígado).

Como começa o comprometimento do fígado em um paciente diabético? Inicialmente, o fígado começa a acumular gordura (esteatose hepática), principalmente em decorrência do aumento da produção de triglicerídeo hepático (20-30% dos diabéticos apresentam na ultra-sonografia acúmulo de gordura hepática). Particularmente, observa-se que 100% dos pacientes com obesidade mórbida e diabetes apresentam esteatose hepática. A deposição contínua de gordura no fígado poderia ocasionar um processo inflamatório agudo (hepatite) e levar a uma doença chamada de esteato-hepatite aguda (hepatite aguda por deposição de gordura). A esteato-hepatite acomete 50% dos adultos diabéticos obesos situados na faixa etária entre 35 e 60 anos. O sexo feminino é o mais comprometido (60 a 80%) e mulheres diabéticas obesas com idade superior a 50 anos teriam um maior risco de desenvolver tal doença.

A referida doença, na maioria dos casos, é assintomática, ou seja, uma grande parte dos pacientes não sente qualquer problema. Por outro lado, alguns pacientes queixam-se de um leve desconforto (sensação de peso) no lado direito do abdome, geralmente abaixo das costelas. Ao exame clínico, grande parte dos pacientes apresenta fígado crescido (hepatomegalia), sendo este considerado o dado clínico mais freqüente observado pelo médico. Nos exames de sangue, um número significativo dos pacientes apresenta provas de função hepática discretamente alteradas, como as transaminases e aumento das taxas de gordura no sangue, principalmente em decorrência do aumento dos triglicerídeos.

Se não tratada, a esteato-hepatite aguda torna-se crônica e um percentual bastante significativo dos diabéticos desenvolverão uma cirrose hepática ao longo do tempo, nunca menos que 20-30 anos. Pacientes diabéticos têm um risco aumentado em 7 (sete) vezes de apresentar endurecimento do tecido do fígado (fibrose). Diversos estudos científicos incriminam a doença diabetes mellitus II como fator de risco para o desenvolvimento de câncer de fígado. Estudos bem atuais têm provido evidências de que as hepatites virais pelos vírus das hepatites B e C, o uso abusivo do álcool e diabetes tipo 2 interagem sinergicamente desenvolvendo o câncer de fígado.

7 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns Dr. jose Carlos, por este excelente Blog.

A maneira como escreve, em tom de prosa, torna o texto, (repleto de conteúdo informativo, técnico) de uma leveza acessível a nós, leitores profanos da medicina,pela forma agradável que nos prende a atenção.

Lembrei de minha mãe, hoje no oriente eterno,obesa,cardíaca, que comia de tudo segundo ela " só um pouquinho " e usava um pratinho e colher pequena, mas como repetia este pratinho....e o cafezinho que ela não dispensava...só com adoçante !!!

Hoje , procurando na internet, "diabetes e doenças do fígado", dentre vários links, deparei-me com este excelente Blog.

Sucesso contínuo,e Fraternal abraço

Gustavo Velasquez Santos
Araguari Minas Gerais

Anônimo disse...

parabens,exelente materia me indentifiquei muito com sua mãe.É de materias assim que precisamos sem vocabulário dificil. obrigado, um abraço.

Anônimo disse...

Muito obrigado pelo exclarecimento!!!
Minha esposa é diabética e gordinha com glicose em volta de 250 (conhece este Filme?), e com problemas começando no fígado , tirei uma cópia do seu artigo e estou incentivando ela para tratamento, novamente MUITO OBRIGADO !!!

Wilson Cassio
Curitiba - PR

Anônimo disse...

gostei bastante dos esclarecimentos!! Minha sogra descobriu atraves de uma ultrason que o fígado estava crescido e com gordura e ficou aflita!!Ela pode ser considerada uma pessoa diabetica ou seria o inicio de uma hepatite?

Ana Luísa Almeida disse...

Prezado Dr. José Carlos, venho dar os parabéns pelo seu blog que é excelente e me ensinou muito, pois sou diabética do tipo 2 e não tinha conhecimento de que poderia haver por conta da obesidade e da glicemia fora de controle, um reflexo no fígado.
Matérias como essa só vem a nos acrescentar, agradeço a oportunidade de tão bons esclarecimentos.
Possamos contar sempre com matérias instrutivas e esclarecedoras como a sua.
Muito obrigada,
Abraço,
Ana Luísa Almeida/SP

Emanuele Zimmermann disse...

Tantas eram as minhas dúvidas sobre esteatose hepática...Tenho diabetes tipo 2 e também esteatose hepática...Mas a médica que cuida do meu problema é apenas clínica geral e muito pouco soube me informar sobre o assunto...Muito obrigada e que DEUS lhe abençõe cada dia mais.Sabe explicar com muita clareza os assuntos que mais devemos saber...

Emanuele Zimmermann
Curitiba-Pr

Stella disse...

Gostaria de deixar o meu grande agradecimento ao DR. José Carlos ferraz, pela excelente e esclarecedora explicação, usando métodos claro e simples, sem rodeios ou termos técnicos. Fui diagnosticada com a Esteatose hepática grau leve, fiquei apavorada com medo de estar com câncer no fígado, Eu não sou diabética e não consumo álcool. Gostaria de saber se existe medicamentos para esteatose hepática, se possível quais alimentos proibidos?