O fígado e as lombrigas: uma história brasileira


José Carlos Ferraz da Fonseca

Médico especialista em Doenças do Fígado




Na figura A, se observa um enovelado de vermes adultos de ascaris lumbricóides (arquivo do autor).



Na figura B (foto cedida gentilmente pelo Prof.Dr. Luiz Carlos Ferreira, Departamento de Patologia, FCS-UFAM), observamos um verme adulto do ascaris lumbricóides que migrou e alojou-se dentro do fígado (setas amarelas indicando parte do corpo do ascaris).




Recordo da história que é narrada neste artigo, como se ainda fosse hoje. Apesar do fato ter acontecido no início dos anos noventa, a história contada a seguir continua atualíssima. Um grande empresário e sua família (mulher, três filhos e sogra) procuram-me no serviço público, após uma espera costumaz de algumas horas, com as seguintes queixas digestivas e achando que todos estavam com hepatite: enjôos, vômitos, dor de barriga e diarréia. As crianças não dormiam direito à noite e rangiam muito os dentes. Macaco velho, digo, experiente de lidar com pacientes nativos de uma região endêmica de tudo que é doença de terceiro mundo, pensei no mais fácil e solicitei de pronto um simples exame de fezes para toda a família. Não falei da minha suspeita de diagnóstico e nem pedi exames de sangue específicos para hepatite, apesar de ser questionado pela esposa e sogra do empresário (naquele tempo ainda não existia internet). Um dia depois, com os exames prontos e revelando um verdadeiro cemitério (três cruzes) de ovos de ascaris nas fezes, dei o veredicto final ao patriarca da família: estão todos com lombriga. O diagnóstico caiu como um petardo no paciente empresário. Este ficou lívido e mostrou-se indignado com o meu sutil diagnóstico. Passado o susto, agora com um risinho sarcástico, soltou a bomba: “Doutor, lombriga não é doença de pobre? Como é que pode, meu estimado serventuário do estado (frase menos agressiva que encontrei para não citar o codinome que recebi do paciente naquele momento)? Tudo em casa é limpo, só bebemos água fervida e filtrada, ninguém come terra, só comemos verdura importada, as crianças não andam descalças, lavamos as mãos antes das refeições e depois que defecamos. Não é erro de laboratório público? Não trocaram os potes que continham as minhas fezes e da minha família?”. Educadamente, pediu desculpas e disse categórico: “vou procurar um médico particular e não acredito no seu diagnóstico”. Indiretamente quis dizer o seguinte: não acredito em médico que atende somente o proletariado. Tentei entregar os resultados dos exames, não aceitou, deu meia volta, apesar da sala apertada e sem ar condicionado e foi embora de vez. Fiquei a ver lombrigas, digo, navios...

O que a história acima narrada tem a ver com o título deste artigo? Muita coisa, comece a acreditar. Primeiro, lombriga não é doença só de pobre; é de rico também e daqueles que não moram ou estudam na Suíça. Segundo, que o verme Ascaris lumbricóides, conhecido popularmente como “lombriga”, acomete grande parte da população brasileira de uma maneira geral, atingindo cerca de 70 a 90% das crianças entre 1 ano e 10 anos de vida. Terceiro, ainda se morre no Brasil de obstrução dos intestinos ou das vias biliares por enovelamento do verme adulto do ascaris (lombriga). Quarto, muitos brasileiros excluídos do processo social-econômico se sufocam ao eliminarem lombrigas pela boca e narina. Quinto, todos os vermes que teimam invadir e habitar nosso intestino passam obrigatoriamente pelo fígado ou se alojam na vesícula biliar e a partir daí podem provocar doenças que podem ser benignas ou graves.

Adquire-se a ascaridíase (doença ocasionada pelo Ascaris lumbricóides) através da ingestão dos ovos dos vermes contidos nos alimentos (verduras e legumes mal lavados) e água não potável. Uma ampla quantidade de larvas (primeiro estado do verme após rompimento do ovo) e vermes adultos de ascaris pode alcançar o fígado por via sangüínea, veias e artérias do fígado e biliar (vesícula biliar). Na forma larvária (primeiro estado do verme), o ascaris é capaz de provocar lesão do fígado e, conseqüentemente, hepatite, apesar de ser um achado clínico muito raro. Todavia, se ocorrer uma alta infestação (invasão do organismo) de ascaris no intestino (mais de trinta vermes adultos), podemos observar os seguintes sinais e sintomas, apesar de não serem típicos e exclusivos da ascaridíase: urticária (erupção na pele semelhante à provocada pelo contato da planta denominada de urtiga), enjôos, vômitos, diarréia, nervosismo nas crianças, ranger de dentes, insônia, crises epileptiformes (epilepsia) e dor na barriga.

Quando ocorre comprometimento do fígado, o quadro clínico depende do número de ascaris que invadem as vias biliares dentro do fígado ou fora dele (vesícula biliar). O que acontece? Após passar por vários órgãos do organismo, o verme se torna adulto no intestino e por sua grande mobilidade migra para as vias biliares. Dependendo do número de vermes adultos, ocorre ou não a obstrução da vesicular biliar, não deixando passar a bile para o intestino, ocasionando o que se segue: dor intensa debaixo da costela direita semelhante à da cólica biliar (dizem que dói mais do que ter um filho pela via natural), enjôos e vômitos. Três a quatro dias depois o paciente refere febre e os olhos ficam amarelos. O verme pode migrar da vesícula biliar para dentro do fígado e aí o estrago é grande, provocando abscesso ou infecção generalizada. Se não forem tomadas medidas urgentes, de caráter estritamente médico, o paciente morre.

Como o prezado leitor pode ter observado neste artigo, o título “o fígado e as lombrigas: uma história bem brasileira” não é fictício e é até real. Finalizando, termino este artigo fazendo uma pergunta. Quando foi a última vez que você fez um exame de fezes? E se as suas fezes estiverem cheias de ovos de ascaris? O que você vai fazer? Tratar-se ou questionar o seu médico? Hoje, sabemos que basta um comprimido (dose única) para tratar um paciente com ascaris. Claro, desde que o mesmo não seja portador de complicações maiores, tal como abscesso no fígado.

5 comentários:

Edson disse...

Parabéns, Dr. José Carlos!
O Ministério da Saúde sabe de suas iniciativas?
Felicito-o por ser médico e divulgar sua experiência.
É! O Brasil ainda não está perdido!

lina disse...

Amei os esclarecimentos,pois hoje ao me curvar para cortar as unhas dos pés; senti dor debaixo da costela direita e como estava sentindo a boca amarga a dias resolvi procurar no google. Fiquei impressionada com sua clareza,pois fala de maneira que leigos como eu entendam. Parabéns emuito obrigada Dr. José Carlosdiedl

Anônimo disse...

Parabens, estava pesquisando esses sites pro meu trabalho de ciencias e vc me ajudou MUUUUUUUUUUUUUUUUuuuuuuuuuuuito

Jadson Moura disse...

profissionais como você, que se preocupam realmente com a saúde pública, é que precisamos para "o nosso Brasil".. Parabéns...

Anônimo disse...

Dr., ainda bem que existe pessoas como o sr. Estava procurando alguma relação existente entre vermes no fígado e vontade de consumir bebida alcoólica, mas encontrei seu blog, o que me deixou emocionada e muito feliz em saber que o sr. exerce a verdadeira medicina, de uma forma tão clara, honesta e acessível a todos. Obrigada!!!!!!!!!!!