O fígado na gravidez

José Carlos Ferraz da Fonseca

Médico especialista em Doenças do Fígado (Hepatologia)




Durante a gravidez, sabemos que o tamanho do fígado e a sua irrigação se mantêm normal durante todo o período de gestação. Se existem alterações das funções do fígado durante a gestação, estas são mínimas e estão principalmente relacionadas com a elevação no sangue de alguns marcadores das funções hepáticas. Os principais marcadores seriam a fosfatase alcalina (enzima de origem hepática) e a albumina. Com relação à fosfatase alcalina, quanto maior o tempo de gestação, maiores taxas são detectadas. Os maiores níveis desta enzima são encontrados antes do parto. Este aumento deve-se ao aparecimento de uma outra enzima de origem placentária.

Na gravidez, a queda dos níveis de uma proteína denominada de albumina (outro marcador da função hepática) é um achado constante e deve-se à diluição do sangue que ocorre na mulher gestante. Os níveis baixos desta proteína na gestante podem ocasionar desde um simples inchaço (edema) nas pernas ou até um quadro de eclâmpsia. Se durante a gestação ocorrer elevação das taxas de bilirrubinas (o aumento da bilirrubina no sangue seria responsável pela coloração amarelada do globo ocular e da pele) e das aminotransfersase (enzimas produzidas no fígado que aumentam quando o mesmo é agredido), aí devemos levar em consideração que existe uma indicação de problemas no fígado da gestante.

As doenças do fígado que ocorrem durante a gravidez são classificadas em três grupos, a saber: doenças do fígado próprias da gravidez; doenças do fígado ocorridas na gravidez; gravidez complicando doenças do fígado pré-existente.

Com relação às doenças do fígado próprias da gravidez, as mais importantes seriam:

1.- colestase intra-hepática da gravidez (retardamento ou interrupção do fluxo da bile dentro do fígado). Esta doença se caracteriza pelo amarelo dos olhos (icterícia) e coceira (prurido). Geralmente, o quadro de icterícia aumenta no terceiro trimestre da gravidez e observa-se escarificações na pele provocadas pela coceira (acúmulo de bilirrubinas e de outras substâncias no sangue e na pele). O maior problema desta doença relaciona-se ao feto, pois observa-se um maior número de sofrimento fetal e natimortos. Após o trabalho de parto, os sintomas desaparecem e a doença não deixa seqüelas na mãe.

2.- esteatose aguda na gravidez (infiltração gordurosa no fígado). Aparece no início do último trimestre da gravidez e caracteriza-se por vômitos, enjôos, dor em todo abdome, dor de cabeça constante e olhos amarelo. Algumas gestantes apresentam hemorragia digestiva, pressão alta, barriga-d’água (ascite) e inchaço nas pernas (edema). Sinais de pré-eclâmpsia ou toxemia gravídica (alta pressão sanguínea e aumento das proteínas na urina) ou eclâmpsia são observados em 46% dos casos de esteatose aguda da gravidez.

3.- hiperemese gravídica (vômitos incoercíveis levando à desidratação grave da gestante). A presença de icterícia nestes casos é muito rara.

4.- pré-eclâmpsia ou eclâmpsia. De cada dez mulheres que desenvolvem este quadro, cinco apresentam alterações laboratoriais nas funções do fígado, com aumento discreto das bilirrubinas e aminotransferases. Das doenças do fígado próprias da gravidez, a mais grave seria a ruptura espontânea do fígado relacionada à pré-eclâmpsia ou eclâmpsia. Em nossa experiência, das doenças hepáticas que ocorrem na gravidez as hepatites virais são a causas mais comuns.

Outras doenças hepáticas podem ocorrer durante a gravidez, tais como: hepatite medicamentosa, inflamações na vesícula e pedra na vesícula. Se uma paciente tem alguma doença do fígado pré-existente (cirrose hepática) e engravida, a tendência é um agravamento da cirrose hepática por hemorragia digestiva (rupturas de varizes esofágicas). A paciente pode entrar em coma por falência do fígado. Sabemos que é muito difícil uma paciente com cirrose hepática engravidar. Se tal fato ocorrer, 90% das pacientes desenvolvem falência do fígado e 50-70% morrem antes do parto, durante o parto ou depois do parto.

Toda gestante deve evitar o uso de bebidas alcoólicas e algumas drogas, como a tetraciclina, pois existe um efeito muito mais agressivo destes dois agentes ao fígado durante a gestação.

Finalizando, acreditamos que este artigo teve como finalidade maior alertar a mulher gestante ou a que pretende engravidar dos riscos que ela pode ter durante a gestação, principalmente se os olhos ficarem amarelos e se ocorrer uma coceira interminável sem causa aparente.

3 comentários:

Renata disse...

Dr. Jose Carlos, em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Senhor, por se preocupar e se dedicar ao ser Humano. O Senhor é Médico "Das Antigas", onde, em 1º lugar, o Paciente é o mais importante. Adorei o seu Blog. Explica as doenças do Fígado com clareza e simplicidade. Tive Colestase Hepática em 2008. O Senhor acredita que sofri mais ou menos 60 dias e os médicos não achavam o problema e quando diagnosticaram "com dúvidas", quase perco o Bebê. Graças a Deus, minha Filha está bem, mas, foi um grande susto. Nasceu de 8 meses e ficou na UTI neonatal. Tive um prurido horroroso e incessante. Minhas pernas eram só feridas. A minha Julia foi um milagre ter nascido viva, pois, nestes 60 dias tomei muita medicação, sem saber o que era na verdade. O Senhor explica muito bem o sintoma e como tudo acontece. Com certeza irá salvar muitas vidas com as sua sabedoria e dedicação. Nota Dez para o seu Blog. Atenciosamente,
Renata Santana Pareja

roseli moreira disse...

oi doutor,eu tive hepatite medicamentosa por propiltiuracil uns 20 dias antes do nacsimento da minha filha,eu sintia muitas dores abdominais e os medicos nao achavam o que era,e infelismente no dia 28 de fevereiro de 2011 eu entrei em trabalho de parto,com 36 semanas de gestacao e a minha filha acabou falecendo.hoje tento superar a dor de perder minha princesinha,e entender melhor esta doenca para um dia poder engravidar de novo.roseli moreira caxias do sul rs

Erinelma disse...

Olá! Hoje fui diagnosticada com colestase e quando li seu comentário fiquei preocupada, pois estou com 23 semanas! Como foi o seu tratamento? O que tomou? Teve parto prematuro espontâneo ou o médico antecipou? Por favor me responda.